DESFECHO 1
E agora?
"Com a cabeça num caos, dividida entre a vontade e a racionalidade, a paixão e a razão, o amor e a dúvida....e agora?! Olha para ele, de decisão já tomada, na certeza dolorosa que qualquer que seja a decisão, persistirá sempre a dúvida, incerteza, insegurança, receio.
Olha para ele, olhos cansados e tristes, nó na garganta, um peso do tamanho do mundo no coração e na alma, que de repente fica vazia, oca, insuportavelmente só. Engole em seco, faz um compasso de espera. Tensa, fecha as mãos com força, ganhando coragem para dizer o que ela mesmo não quer ouvir.
Ele contrai o corpo todo, tenso, muito tenso. Algo lhe diz que já sabe qual vai ser a decisão, e que não vai estar preparado para isso. Os olhos escurecem, a boca seca, o coração bate descontrolado e a alma pesa-lhe, um peso imenso que o afunda na cadeira.
-Não sei se quero tomar a decisão que tomei, não sei se alguma vez vou conseguir deixar de pensar que fiz a escolha errada, não sei mesmo se alguma vez voltarei a ser a mesma. Não sei como vou continuar daqui para a frente, vendo-te todos os dias, olhando para ti, querendo-te. Não sei se serei eu ou simplesmente uma sombra de mim, uma alma meio incompleta, um eco vazio de alguém, não sei.
Mas sei que não quero voltar a viver na incerteza de não saber o que pensas, o que queres. Não sei se o que me disseste é tudo verdade, mas sei que não quero vir a descobrir que é mentira. Não sei se quero e consigo estar longe de ti, mas sei que não quero estar perto e sentir-te longe, distante, fugitivo, indiferente.
Sei que quando a confiança foge, quando se acaba, tudo muda e tudo acaba, lentamente mas sem retorno. Sei que quando a mágoa foi grande e quando as acções feriram profundamente, retornar é difícil, é angustiante, não resulta. Sei que te amo desesperadamente, mas já não sei se gosto de ti. Sei que vou ficar vazia, só, incompleta, mas sei mais ainda que é melhor assim do que viver eternamente numa roleta russa de sentimentos. E por isto tudo, por muito mais, por mim, pela minha sanidade, acho que te vou deixar ir, sem volta, sem retorno, com uma tristeza imensa, com um sentimento de perda infinito...mas é assim, não pode ser de outra forma.
Levanta os olhos, olha para ele. Quase desiste da sua decisão ao ver a dor profunda que toma conta dos olhos castanhos que tanto gosta. Mas não, endireita os ombros, levanta a cabeça, engole em seco - secando as lágrimas que teimam em nublar tudo à sua volta e levanta-se.
Ele, vai atrás, até á saída. Cabisbaixo, calado, sentido. Mãos nos bolsos que escondem umas mãos fechadas com força...
Ela pára, de frente para ele, olha-o intensamente como se quisesse memorizar cada detalhe, cada traço, cada milímetro de pele. Inspira profundamente querendo levar com ela o cheiro dele. Engole em seco várias vezes - pára, chora sózinha, não aqui ,diz para si mesma - inspira profundamente.
- Bom, vou indo, fica bem
- ...tu também
Vira costas, tentando parecer decidida e forte. A alma num tumulto, o coração descoordenado, as ideias completamente nubladas e as lágrimas, agora livres, escorrendo-lhe pela cara. Vai em frente, sem olhar para trás, tentando não correr, não fugir. Sabe que a dor da perda é imensa, que vai bater mal por muito e muito tempo, que vai ficar de alma vazia até um dia conseguir esquecer. Sabe também que parte dela ficou ali, com ele, para sempre. Longe dele, abre a porta do carro, encosta a cabeça ao volante e chora incontrolavelmente. Sabe bem que o que sente por ele é único e intenso, que os dois juntos são mais, são tudo, e por isso a dor da perda é infinita...intensa, física. Sabe que vai ter que abdicar de alguns sonhos para ficar longe dele, para se afastar ou então não será capaz de manter a decisão. Encolhe os ombros, limpa as lágrimas, liga a música e o carro...e vai, só mais uma vez, rumando à vida....tentando recompor os retalhos de si...sem saber quando o conseguirá
E ele? Bem, ele fica ali parado, rígido, inconsolável. Não consegue e não quer acreditar que a perdeu simplesmente por culpa sua, das suas atitudes, do medo de se magoar, da falta de coragem para expor os sentimentos, da sua eterna insegurança. Olha para ela, andando firme, para longe dele e tem vontade de correr atrás dela, de a parar, de a abraçar e beijar e lhe pedir para ficar com ele, para sempre. Mas sabe que não o pode fazer. Não depois de ter visto aquela dor intensa nos olhos dela e sentir que a decisão que ela tinha tomado lhe estava a doer tanto quanto a ele. Não, não vou. Olha-a uma última vez, não precisando de memorizar os contornos daquele corpo que conhece tão bem, que fecha os olhos e vê à sua frente, dos olhos que tanto gosta, do cheiro que o invade dia a dia. Vira costas e caminha, também ele mais uma vez só, pela praia. Senta-se numa rocha e finalmente deixa as lágrimas correram livres, de frente ao mar. As lembranças invadem a sua memória, não lhe dando descanso. Vê-a a rir-se alegre e solta, vê-a séria olhando para ele, olhos nos olhos. Vê-a solta, entregando-se a ele, sem limites, toda ela, de alma liberta. Vê-se a ele, olhando-a sedento, desesperado por ela. Vê-se a ele sózinho, caminhando para um futuro que hoje lhe parece tão negro, com a certeza que parte dele se foi. Com a certeza que nunca mais será o mesmo. Que será sempre incompleto e que uma parte dele mora agora nela, para sempre. Que por muitos relacionamentos que venha a ter, nunca se entregará totalmente, e ela estará sempre presente, nele, em todo o lado.
Tristes, ficam sós, embora juntos nos pensamentos, nas memórias, nas vontades, nas tristezas, na certeza que perderam parte das suas almas, das suas vidas...."